Maldita sejas tu, mulher querida
Tu, que ao repouso antigo me tiraste
e a minha alma de ingênuo deslumbraste
com o falso brilho de uma nova vida!
Maldita seja a boca apetecida
onde a sede de amor me saciaste,
taça em que de teus beijos me ofertaste
a capitosa e pérfida bebida!
Maldito seja o amor em que me enlaço
consciente, abandonando o meu descanso
minha antiga ventura, e minha paz!
Malditas, as palavras que disseste!
Maldito, o longo beijo que me deste
e este pungente gozo que me dás!
Afonso Lopes de Almeida
quarta-feira, 7 de março de 2012
Em memória
Do que foi um Amor, uma doçura
sem par, feita de sonho e de alegria,
resta somente agora a cinza fria
que retém esta pálida envoltura.
A orquídea de esquisita formosura,
a borboleta em vã policromia
deixaram a fragrância e a galhardia,
legado para a minha desventura.
Sua lembrança sobre tudo impera;
de seu sepulcro minha dor a arranca;
minha fé a cultua; o amor a espera;
mas devolvo-a à luz com a mesma e franca
risada matinal de primavera:
nobre, modesta, carinhosa e branca!
Guillermo Valencia
sem par, feita de sonho e de alegria,
resta somente agora a cinza fria
que retém esta pálida envoltura.
A orquídea de esquisita formosura,
a borboleta em vã policromia
deixaram a fragrância e a galhardia,
legado para a minha desventura.
Sua lembrança sobre tudo impera;
de seu sepulcro minha dor a arranca;
minha fé a cultua; o amor a espera;
mas devolvo-a à luz com a mesma e franca
risada matinal de primavera:
nobre, modesta, carinhosa e branca!
Guillermo Valencia
As cinzas de um crepúsculo
As cinzas de um crepúsculo, Senhora,
- rota a cinzenta nuvem da tormenta -
pintaram sobre a rocha pardacenta
no cerro, ao longe, um resplendor de aurora;
uma estática aurora em rocha fria
que assombra e que apavora o caminhante,
mais que feroz leão, em claro dia,
ou nas dobras da serra, a ursa gigante.
Com o fogo de um amor que é meu tormento
entre a esperança e o medo um sonho esboço,
procuro o mar, além... o esquecimento;
não, como à noite, a rocha, é o amor vosso,
enquanto o mundo gira em sombras, lento...
Não me chameis, porque voltar não posso.
Antonio Machado
- rota a cinzenta nuvem da tormenta -
pintaram sobre a rocha pardacenta
no cerro, ao longe, um resplendor de aurora;
uma estática aurora em rocha fria
que assombra e que apavora o caminhante,
mais que feroz leão, em claro dia,
ou nas dobras da serra, a ursa gigante.
Com o fogo de um amor que é meu tormento
entre a esperança e o medo um sonho esboço,
procuro o mar, além... o esquecimento;
não, como à noite, a rocha, é o amor vosso,
enquanto o mundo gira em sombras, lento...
Não me chameis, porque voltar não posso.
Antonio Machado
A fonte de sangue
Muitas vezes parece jorrar o meu sangue
como uma fonte - então me sinto vago, exangue;
ouço-o como um murmúrio surdo em minha vida
mas me atormento em vão, sem achar a ferida.
Pela cidade inteira a escorrer, vai formando
sobre um campo fechado, ilhas de vez em quando,
e vai matando a sede a cada criatura
pondo em tudo o que toca uma rubra moldura.
Tenho pedido sempre aos vinhos capitosos
esquecer, por um dia, essa angustia tão rara,
- o bom vinho que à vista e que ao ouvido aclara.
E só no amor achei os sonos generosos,
mas o amor para mim a um leito em brasas, feito
para um sofrer cruel! E um inferno em meu peito!
Baudelaire
como uma fonte - então me sinto vago, exangue;
ouço-o como um murmúrio surdo em minha vida
mas me atormento em vão, sem achar a ferida.
Pela cidade inteira a escorrer, vai formando
sobre um campo fechado, ilhas de vez em quando,
e vai matando a sede a cada criatura
pondo em tudo o que toca uma rubra moldura.
Tenho pedido sempre aos vinhos capitosos
esquecer, por um dia, essa angustia tão rara,
- o bom vinho que à vista e que ao ouvido aclara.
E só no amor achei os sonos generosos,
mas o amor para mim a um leito em brasas, feito
para um sofrer cruel! E um inferno em meu peito!
Baudelaire
Le bonheur de ce monde
Ter uma casa boa, limpa e bem cuidada
um variado jardim de canteiros cheirosos,
frutos, bom vinho, filhos pouco numerosos,
possuir só, sem alarde, uma esposa afeiçoada;
não ter contas, amor, questões, demandas, nada
de partilha a fazer com parentes cuidosos,
com pouco se fartar, descrer dos poderosos,
seus desejos regrar por pauta moderada;
viver tendo franqueza e não tendo ambição,
entregar-se sem pejo à sua devoção,
domar suas paixões, conte-las com acerto;
conservar a alma livre e o julgamento forte,
rezar enquanto medra o enxerto
e esperar docemente em sua casa a morte.
Cristophe Plantin
um variado jardim de canteiros cheirosos,
frutos, bom vinho, filhos pouco numerosos,
possuir só, sem alarde, uma esposa afeiçoada;
não ter contas, amor, questões, demandas, nada
de partilha a fazer com parentes cuidosos,
com pouco se fartar, descrer dos poderosos,
seus desejos regrar por pauta moderada;
viver tendo franqueza e não tendo ambição,
entregar-se sem pejo à sua devoção,
domar suas paixões, conte-las com acerto;
conservar a alma livre e o julgamento forte,
rezar enquanto medra o enxerto
e esperar docemente em sua casa a morte.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Diário de um cão
1ª semana
Hoje faz uma semana que nasci! Que alegria ter chegado a esse mundo!
1 mês
Minha mamãe cuida muito bem de mim. É uma mãe exemplar.
2 meses
Hoje me separaram de mamãe. Ela estava muito inquieta e com seus olhos me disse adeus como esperando que minha nova "família humana" cuidasse de mim, como ela havia feito.
4 meses
Cresci muito rápido, tudo chama a minha atenção. Há várias crianças na casa que são como meus "irmãozinhos". Somos muito levados, eles me jogam uma bola e eu os mordo jogando.
5 meses
Hoje me castigaram, minha dona se zangou porque fiz "pipi" dentro da casa... mas nunca me disseram onde eu deveria fazer. E como eu durmo na área de serviço...! eu não me aguentei!!!
6 meses
Sou um cão feliz. Tenho o calor de um lar, sinto-me seguro e protegido...Creio que minha família humana me ama muito... Quando estão comendo me convidam, o pátio é somente para mim e eu estou sempre cavoucando, como os meus antepassados lobos, quando escondiam a comida. Nunca me educam, seguramente porque nada faço de errado.
12 meses
Hoje completei um ano. Sou um cão adulto e meus donos dizem que cresci mais do que eles esperavam. Que orgulhosos devem estar de mim!!!
13 meses
Como me senti mal hoje... Meu "irmãozinho" tirou a minha bola. Como nunca pego seus brinquedos fui atrás dele e o mordi. Mas como meus dentes estão muito fortes, machuquei-o sem querer. Depois do susto me prenderam e quase não posso me mover para tomar um pouco de sol. Dizem que sou ingrato e que vão me deixar em observação (certamente não vacinaram)...não entendo nada do que está acontecendo.
15 meses
Tudo mudou... vivo preso no pátio...na corrente...me sinto muito só...minha família já não me quer. Às vezes esquecem que tenho fome e sede e quando chove não tenho teto que me cubra...
16 meses
Hoje me tiraram da corrente. Pensei que tinham me perdoado...Fiquei tão contente que dava saltos de alegria e meu rabo parecia um molinete... Parece que vou passear com eles. Subimos no carro, atrelamos o carreto e andamos um grande trecho quando pararam. Abriram a porta e eu desci correndo, feliz, crendo que era dia de passeio no campo. Não entendo porque fecharam a porta e se foram... -"Esperem"!!! - lati...-"esqueceram de mim...!!!".- Corri atrás do carro com todas as minhas forças...minha angústia aumentou ao perceber que o carro se afastava e eles não paravam. Tinham me abandonado...
17 meses
Procurei, em vão, achar o caminho de volta à casa. Sento-me no caminho, estou perdido e algumas pessoas de bom coração que me olham com tristeza e me dão algo de comer... Eu agradeço com um olhar do fundo de minha alma... quisera que me adotassem, eu seria leal como ninguém. Porém eles apenas dizem -"pobre cãozinho, deve estar perdido".
18 meses
Outro dia passei por uma escola e vi muitas crianças e jovens como meus "irmãozinhos". Cheguei perto e um grupo deles, dando risadas, atirou-me uma chuva de pedras "para ver quem tinha melhor pontaria"... uma dessas pedras atingiu um dos meus olhos e desde então não enxergo com ele.
19 meses
Parece mentira mas quando eu estava mais bonito as pessoas se compadeciam mais de mim... Agora que estou muito fraco, com um aspecto bem mudado... perdi meu olho, as pessoas me tratam a pontapés quando pretendo deitar-me na sombra...
Quase não posso me mover. Hoje, ao atravessar a rua por onde passam os carros, um deles me atropelou. Pelo que sei, estava num lugar seguro chamado "sarjeta", mas nunca vou me esquecer do olhar de satisfação do motorista. Antes tivesse me matado... porém só me deslocou a cadeira.
A dor é terrível, minhas patas traseiras não me respondem e com dificuldade me arrastei até uma moita de ervas fora da estrada... Já faz 10 dias que estou em baixo de sol, chuva e frio, sem comer. Não posso me mover, a dor é insuportável. Sinto-me muito mal, estou num lugar úmido e parece que meu pelo está caindo.
Algumas pessoas passam e não me vêem; outras dizem: "não chegue perto". Já estou quase inconsciente, porém uma força estranha me fez abrir os olhos.
A doçura de sua voz me fez reagir. "Pobre cãozinho, veja como te deixaram", dizia... junto a ela estava um senhor de roupa branca que começou a tocar-me e disse:"Sinto muito senhora, mas esse cão já não tem remédio, o melhor é que deixe de sofrer."
A gentil dama consentiu, com os olhos cheios de lagrimas.
A doçura de sua voz me fez reagir. "Pobre cãozinho, veja como te deixaram", dizia... junto a ela estava um senhor de roupa branca que começou a tocar-me e disse:"Sinto muito senhora, mas esse cão já não tem remédio, o melhor é que deixe de sofrer."
A gentil dama consentiu, com os olhos cheios de lagrimas.
Como pude, mexi o rabo e olhei para ela agradecendo por me ajudar a descansar...
Senti somente a picada da injeção e dormi para sempre, pensando em porque nasci, se ninguém me queria...
Senti somente a picada da injeção e dormi para sempre, pensando em porque nasci, se ninguém me queria...
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